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news_artigo.gifARTIGOS DE FUNDO - Empobrecimento cultural


Apesar deste artigo se referir, em parte, à realidade chilena, a sua universalidade permite ajustar-se a qualquer local em qualquer momento.


Faça este exercício. Quem esculpiu David? Em que continente fica o Iraque? Qual é o rendimento per capita do seu país? Sabe o que é o património cultural de uma nação? Provavelmente intui as respostas. Ou talvez nem tenha mesmo uma ideia. Fez clique? Sim, isto é cultura geral.

Como reverter a falta de preparação dos chilenos

Tudo parece indicar que a actual educação, com o seu prodigioso desdobramento técnico, está a produzir em massa homens instruídos, mas não cultos.

Jorge Peña, filósofo



O nosso país está a viver um despertar cultural. Museus que abrem até à meia noite, concertos de alto nível a preços acessíveis, óperas para crianças, espectáculos internacionais de renome... Tudo parece indicar que nós, “os ingleses da América do Sul”, estamos a culturalizarmo-nos como loucos.

Mas as investigações, estudos de opinião e a percepção geral indicam justamente o contrário. Um exemplo: a pesquisa de consumo cultural e uso do tempo livre realizada o ano passado pelo Ministério de Cultura com o INE reflectiu que antes de ler um livro de história, de contos ou de poesia, os chilenos optam por textos de autoajuda; que só 9,4% dos inquiridos assistiram a peças teatrais nos últimos três meses e que somente 14.8% dos mesmos tocou um instrumento, cantou ou compôs.
Estamos em crise cultural no Chile? Se é assim, quais são as suas causas? E, mais importante ainda, qual é o papel da família na formação cultural?

A cultura aprende-se em casa

Quando o pianista e director de orquestra Eduardo Browne voltou ao Chile, depois de viver 17 anos nos Estados Unidos, deparou-se com um nível cultural chileno muito pobre. Não o surpreendeu, “mas chamou-me a atenção que o desenvolvimento económico do país, sobretudo das pessoas com mais recursos, não tenha sido acompanhado de um interesse por cultivar-se”, diz.

A sua visão é crítica. Após aperfeiçoar-se em Julliard, a melhor escola de música do mundo, e ver como vivem os norte americanos a actividade cultural, soube que tinha uma dívida pendente com o Chile.

“Os Estados Unidos não são o paradigma da cultura, mas há um esforço comunitário muito forte para as artes. As pessoas que vivem nos arredores de Nova Iorque, por exemplo, que é gente com muito dinheiro, não vão aos musicais que há na Broadway, porque o que os seus filhos organizam no colégio é tão bom como o que fazem os profissionais em Manhattan. E a razão por que é tão bom é porque contam com o apoio (económico e emocional) da comunidade em geral”, refere.

À medida que se foi acelerando a dinâmica familiar no Chile (longas jornadas de trabalho, pais ausentes durante o dia), o impulso da família a tudo o que implique cultura declinou.

“A família é a primeira fonte transmissora de cultura. O problema é que hoje não há um espaço para fazê-lo”, lamenta Solange Favereau, filósofa. “Estou profundamente convencida que a refeição familiar, o comer juntos, é um acto de intimidade profundo no qual se tocam os grandes temas humanos. Mas hoje constato que é um hábito cada vez menos comum na família contemporânea e essa é a primeira causa do baixo nível cultural actual”.

Tradições, gestos, actualidade, valores, história familiar… “Ouvir a visão dos pais sobre a vida é fundamental e se não é nessa altura, à mesa, quando será?”

Manifestações de pobreza cultural

Cultura é muito mais que obras de arte, datas históricas e folclore. À partida, é um direito reconhecido na Constituição.

“A palavra vem do latim e quer dizer cultivar”, explica Solange Favereau. “Cultura não é tudo o que faz o homem, como alguns podem sugerir, mas tudo o que faz e aperfeiçoa o homem. Não é saber mais ou menos dados, mas do que se sabe, sabê-lo bem e ter uma ressonância interior”.

Resulta desconcertante, no entanto, que apesar de haver um acesso à educação muito superior à do passado, a bagagem cultural média do chileno é escassa. “Os chilenos mostram uma falta de informação maior do que se imagina e a sociedade contemporânea deixa-a passar”, assinala Magdalena Piñera, directora da Fundação Futuro.

“Nós perguntámos às crianças se alguma vez foram aos museus com os pais e não o têm feito. Nem crianças com pais velhos, nem com pais jovens, pais activos ou sedentários, pais de sectores altos ou baixos”.

Esta falta de conhecimentos, de cultura geral, manifesta-se de diferentes maneiras. Para começar, “as crianças têm poucos temas de conversa”, diz Solange Favereau. A isto soma-se o empobrecimento da linguagem: “Metade das palavras que usam são monossílabos que servem para tudo e são muito mais gestuais que verbais. Tratam de explicar tudo com gestos, da mesma forma que tratam de suprir com isso o que não são capazes de dizer”.

Juntam-se ainda outros factores, como a falta de leitura, que no nosso país é baixíssima. Uma pesquisa do INE (2004) revelou que 60% dos santiaguinos não tinha lido um livro no último ano. Em países como a França, Grã-Bretanha ou Coreia, mais de 70% lê pelo menos um livro por ano. A média é perto de dez.

Mas o historiador Julio Retamal acrescenta ainda mais dados. Pela sua experiência como professor universitário, enumera-as com propriedade: “Vejo que os alunos mostram muito maus modos. Bocejam com a boca aberta, chegam tarde às aulas... Por outro lado, uma falta de cultura geral grave. Não se situam nos períodos históricos. Falamos-lhes da Vénus de Milo e acham que é uma discoteca. Também não possuem conhecimentos específicos e têm uma grande falta de conhecimentos de línguas estrangeiras”. Acrescenta: “Damo-nos conta que não têm interesse pelas matérias. Nem capacidade de concentração; há uma falta de disciplina escolar”.

Mas, importa ser culto? “A cultura é, finalmente, um modo de ser, um modo de expressar-se. E o homem, quando se expressa, expressa o seu espírito, o seu interior. Por outro lado, os conhecimentos permitem-lhe uma forma de estar perante a vida, ter uma atitude crítica face às coisas”, diz Solange Favereau. “O empobrecimento cultural em que vivemos actualmente gerou um empobrecimento da pessoa humana, porque a cultura dá conteúdos interiores”.

Aproveitar o dia a dia

A grande pergunta que então os pais fazem é "que fazer?" Como entregar-lhes essa educação cultural se eles mesmos às vezes não a têm?

“O básico: dando o exemplo”, diz Edwin Harvey, catedrático de Direitos Culturais da UNESCO da Universidade de Palermo, em Buenos Aires. E para isso a primeira coisa a fazer é educar-se. Não se trata necessariamente de estudar, mas sim que os filhos vejam os pais a ler, assinar revistas especializadas, ter um hobby, ouvir música, pensar…

“Esse fazer ‘outra coisa' é o que enriquece a sociedade”, diz Eduardo Browne. “O ensino das artes, por exemplo, promove muitos valores. Na aprendizagem da música há todo um processo de sistematização, de repetição e ordem, de representação de emoções, de trabalho em equipa… tudo o que ajuda a conformar a personalidade”.

É justamente esse valor o que os pais deviam considerar. “Vejo um problema sério na família acomodada chilena, especialmente nos pais, onde a aproximação às actividades extracurriculares artísticas é pouco empenhada, acrescenta Browne.

Atitude que se contrapõe com o que ele mesmo viu em escolas de outros sectores, onde o professor é visto como um deus. “Há listas de espera para cursos extracurriculares. Quem não estudou vai embora, porque há outros que estão à espera da sua oportunidade. As pessoas com mais recursos, no entanto, não mudam um fim de semana na neve porque a criancinha de 8 anos tem de praticar piano”, afirma.

A atitude com que os pais enfrentam o tema da cultura é talvez, desta maneira, o maior obstáculo para que os filhos se desenvolvam integralmente.

“Provavelmente a carga laboral dos pais é a causa", diz Magdalena Piñera, “e por isso mesmo é preciso colocar a actividade cultural ao contrário: não como mais um problema, mas como uma oportunidade de estar com os filhos”.

Um passeio a Valparaíso, por exemplo, pode-se transformar numa ocasião para conversar sobre os temas que os afligem. “Mas ao mesmo tempo, é a oportunidade que se tem de falar da sua história, como país e como família. Conhecer a nossa história, a nossa literatura, a nossa música, tem a ver com conhecermo-nos a nós mesmos. Não é conhecer por conhecer. Ter sentido de pertinência é um apoio substancial à nossa identidade, à nossa personalidade. Isso permite apresentarmo-nos tal qual somos”, diz a directora da Fundação Futuro.

Ferramentas há muitas, e a vida diária oferece milhares. Falar sobre as personalidades ou eventos que dão nome à rua em que vivemos é tão válido como assistir às inumeráveis actividades que diariamente se realizam no país. Porque há que aproveitar o dia a dia (sair e pisar as folhas secas no outono) ou programando visitas (sempre que estas sejam preparadas e não mera recriação), o que as crianças obtêm é muito mais que mera cultura geral. Aprendem a ver a vida de diferentes perspectivas e a subir um degrau na sua formação como pessoas.

Assim me educaram na cultura

Covadonga O'Shea
Jornalista e escritora espanhola. Formada em Filosofia e Letras.

“Os meus pais inculcaram-nos o sentido do esforço, do trabalho, de não nos contentarmos com viver bem e já está, mas prepararmos um futuro. Nunca o disseram com palavras, mas eu vi um pai disciplinado no seu trabalho e ao mesmo tempo apaixonado pela vida, e uma mãe que sublinhava os livros ou escrevia anotações ao lado.

Culturalmente tive a sorte de ter pais a quem importava muito que nós soubéssemos de arte, de música, de pintura. A minha mãe, por exemplo, não nos deixava ler em castelhano, só em francês e inglês. E o meu pai, cada vez que viajava trazia-nos montões de livros de presente”.

Julio Retamal
Historiador, Doutor em Filosofia U. de Oxford, Formado em Filosofia, menção História U. do Chile.

“A minha mãe morreu quando eu nasci e o meu pai quando eu tinha 16 anos, por isso a base cultural que eu obtive foi por interesse próprio. O meu pai era um grande tenista; aos sábados dizia-me ‘Levanta-te para irmos jogar', mas eu preferia ficar a ler na cama. A verdade é que me atraía a leitura, a arte, o teatro. Eu mesmo fiz teatro quando estudava Direito e também estudei piano. Isso por um lado. Por outro, tive a sorte de ter muito bons professores e de poder viajar”.

“Há vários anos descobri uma quantidade importante de contos com sentido. Sendo ainda crianças nessa época os meus seis filhos, e dado o nosso costume de comer todos os dias com eles, encontrei uma maravilhosa maneira de colocar mais um tema profundo na mesa. Desde então comecei a contar um conto a cada refeição, o que não só despertava o interesse de todas as crianças, mas também subia o nível da conversação. Assim conseguimos que a refeição não fosse só momento de correcções, mas também o prazer da análise dos mesmos contos. Lamentavelmente, hoje não tenho novos contos para poder fazê-lo todos os dias, mas mesmo assim mantemos a tradição de fazê-lo uma vez por semana, mais ou menos”.

José Antonio Errázuriz, casado, 6 filhos


7 maneiras de reconhecer uma pessoa culta

  1. Mostra boas maneiras
  2. Possui conhecimentos gerais: situa-se nos períodos históricos, conhece os principais compositores, etc.
  3. Domina certos conhecimentos específicos
  4. Tem a capacidade de tornar uma conversação mais interessante
  5. Utiliza bem a linguagem
  6. Tem uma atitude crítica e informada sobre os temas de actualidade
  7. Domina outros idiomas

Em síntese… o que fazer?

  • Revalorizar o papel da cultura na educação dos filhos e assumir que é tarefa dos pais transmiti-la.
  • Começar por lhes falar da família: que saibam quem foram os seus avós, tios, primos... Ir pela zona onde vivem: as povoações, como mudaram, etc. E continuar por outras áreas, de forma a “situá-los” no mundo.
  • Desempenhar um papel activo. “Não é dizer ‘Filho, lê', mas ‘Filho, vamos ler'”.
  • Aproveitar as oportunidades que a vida oferece no dia a dia para ensinar. Se vive em Vicuña Mackenna, conte aos seus filhos quem é e o que fez a pessoa a quem se deve o nome da rua.
  • Ser criativos. Se costuma levar as crianças à praça, varie um pouco e leve-os aos baloiços do parque.
  • Procurar as oportunidades. A escassez de recursos não é desculpa para fazer actividades que aumentem a bagagem cultural, porque hoje existem muitas facilidades (descontos para crianças e terceira idade, viagens municipais...)
  • Preparar as actividades. Se planeiam ir a uma exposição, informe-se primeiro sobre o pintor. No caminho pode adiantar-lhes o que vão ver ou guiá-los em relação a algum aspecto particular a ver. É mais uma tarefa para si, mas só assim a visita dará frutos para os seus filhos. Não pode ser mera recriação.
  • Valorizar o jantar familiar. Se não costuma comer em família, comece a fazê-lo. É uma grande oportunidade para conversar. Os pais são os encarregados de lançar temas, de provocar uma conversa.
  • Dar o exemplo. Se não se sente preparado, motive-se e faça pesquisas sobre diferentes temas. Mas não esqueça que mais importante do que a quantidade de conhecimentos que possua, é a atitude com que enfrenta a informação (capacidade de estabelecer relações, atitude crítica, etc.).
  • Munir-se de material. Se for possível, invista em boa música, livros de arte, literatura… os clássicos são o caminho por onde pode começar.
  • Incentivar a leitura. Ofereça livros nos aniversários e nas datas importantes.
Pía Orellana G.



Criado em: 06/08/2007 • 12:41
Actualizado em: 06/08/2007 • 15:16
Categoria : ARTIGOS DE FUNDO


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Comentários


Comentário n°1 

Maria Cristina Bortolini 04/01/2009 • 18:44

Quero registrar minha satisfação com o excelente artigo sobre a pobreza da linguagem que vem acontecendo em nossas sociedades, de forma acelerada e preocupante.  O que passa no Chile tbem acontece em nosso país e temo pelas consequências futuras. Estudos atuais demonstram como um empobrecimento de linguagem corresponde a um estreitamento de horizontes mentais e a própria filosofia dispõe de um campo específico de conhecimentos que abordam a intrínseca relação entre linguagem e pensamento. Como educadora acho que devemos discutir mais e aprofundar esta questão tão importante.

  Do homem eminente podemos aprender mesmo quando se mantem em silêncio  Séneca
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