Menu
Qui Quae Quod

Fechar Responsabilidade Social Corporativa

Fechar ARTIGOS DE OPINIÃO

Fechar Justiça Restaurativa

Fechar Multiculturalismo

Fechar Dossier Europa

Fechar ARTIGOS DE FUNDO

Fechar ARTIGOS DE FUNDO II

Fechar ARTIGOS DE FUNDO III

Fechar TENDÊNCIAS 21

Fechar CIBERDIREITOS

Fechar No gesto da procura

Fechar Os erros do ditado

Fechar Para ler e deitar fora

Fechar O canto dos prosadores

Fechar UTILITÁRIOS

Fechar Apresentações

Fechar Barra JURIS

Fechar CANCIONEIRO de Castelões

Fechar Coisas e loisas da língua portuguesa

Fechar DIVULGAÇÃO DE LIVROS

Fechar Delitos Informáticos

Fechar Encontros

Fechar JURISPRUDÊNCIA

Fechar Livros Maravilhosos

Fechar MANUAL DE REQUERIMENTOS

Fechar NeoFronteras

Fechar Nova Lei das Rendas

Fechar O canto dos poetas

Fechar Vinho do Porto

Fechar Workshops

Relax
Pesquisar



Visitas

   visitantes

   visitantes online

PREFERÊNCIAS

Voltar a ligar
---

Nome

Password


SOS Virus

Computador lento?
Suspeita de vírus?
Fora com eles!
AdwCleaner

tira teimas!
--Windows--

Já deu uma vista de olhos pelas gordas de hoje?


Desde 2004
sujet.gifO canto dos prosadores - Aldeias: Cintilações da Serra

No regaço da Serra da Estrela, não muito longe da graciosa Vila de Gouveia, ergue-se um pequeno povoado ao qual, desde há muitos anos, chamam Aldeias. O nome é significativo já que, na verdade, esta terra é constituída por várias aldeias: a Eira, soalheira e dominando o vale que rasga a serra desde Alfátima até Mangualde, o Talegre, o Batuquedo e Alrrote que se encontram afundadas entre montanhas imponentes e onde o vento é sempre mais frio, mais cortante e mais triste.

Terra agreste! Tem, contudo, qualquer coisa de belo, de pureza inefável que faz nascer em nós uma paz interior imensa, nos arrasa silenciosamente a vaidade mostrando-nos como somos pequeninos perante a majestosa simplicidade dos seus montes, vales e ribeiras. Tem-se, ali, uma visão autêntica do início dos tempos. Poucas foram as alterações operadas pela manápula destruidora do homem nas formas moldadas pela mão desse inigualável artífice que é o Criador.

As casas são quase todas feitas de enormes blocos de granito cinzento e duro, indiferente aos séculos, às chuvas e à neve. A igreja matriz, decerto construída no século XVII, estende-se à sombra de um enorme carvalho sob o qual repousou, um dia, Viriato. As terras cultivadas pelo suor de gerações vão banhar-se nas águas das ribeiras onde, outrora, proliferavam as trutas. Os rebanhos de ovelhas e cabras seguem, numa confusão de sons de chocalho, o pastor, homem quase sempre vergado sob o peso de muitos anos de cajado e de infindas vigílias.

Era numa tarde de moribundo Verão.

O sol, ainda abrasador, impiedoso, refulgia num céu muito azul incinerando tudo o que abraçava. O vento quedava-se, comprimido, no peito de Eolo. Ao longe, percebia-se uma multidão de vozes, de passos e de preces: era a procissão em honra de São Cosme e São Damião, padroeiros fiéis das Aldeias.

Dona Angelina, tendo dado conta de que o colorido e devoto cortejo se aproximava, gritou, na sua voz cava, para uma janela que, de si, pouco distava:

_ Ó Pureza! Já aí vem a procissão! Despacha-te, criatura! Deixa lá a costura que tempo é o que te não falta.

Assim falava Angelina, mulher forte e robusta, como forte e robusta é a serra que a gerara. Os seus oitenta anos não lhe haviam deixado um único dente e aos seus cabelos tinham furtado toda a cor. Nos seus olhos, porém, no seu jeito de falar, residia uma frescura que teimosamente despedia o tempo com as mãos vazias. Conhecia todas as agruras da brava serrania desde o berço. Na verdade, havia pastoreado o gado vezes sem conta, nas incontáveis encostas serranas onde o pasto, muito verde, brotava profusamente. Depois, já moça, decerto bela e trigueira, enamorou-se de um seu compatrício que ali passava férias e que vivia emigrado nos Estados Unidos da América. Casou. Emigrou. Durante vinte e cinco anos, tentou a fortuna naquela afortunada terra de fortunas. Contudo, pois que a dita Fortuna tem destas ironias, nunca enriqueceu. Cansada, saudosa, com o marido molestado por um longo e árduo trabalho, voltou. Trazia consigo alguns dólares, uma parca pensão, o corpo moído e um esposo prestes a descer à tumba, ou melhor, a subir ao Céu. Construiu a sua casa, grande demais para quem não tem filhos, trabalhou nos campos e vestiu-se de preto.

Pureza, rechonchuda, inchada, lua cheia com pernas, desceu, com agilidade surpreendente, as escadas de pedra que davam para a rua.

- Sempre veio a banda, ó Angelina! - Observava Pureza espetando uma agulha na bata preta repleta de pequenas linhas brancas.

- Não sei p’ra quê! - Criticava Angelina - Vêm ali mais mudos do que uma pedra!

Palavras não eram ditas quando a banda se fez ouvir. Dos trompetes, trombones e clarinetes saía uma música quase fúnebre que ia fazendo com que as janelas do casario se abrissem de par em par. A procissão, vinda dos confins de Alrrote, chegava, finalmente, à Eira. À frente, marchava a irmandade trajando opas vermelhas e, logo após, o reverendo Turíbio, dilatado dentro dos paramentos, mãos cruzadas sobre o regaço, cara púrpura como as vestes dos cardeais, media o passo com austera postura lançando para as janelas olhares de reprovação àqueles que se não haviam incorporado no santo cortejo. Depois, surgia a banda, um pouco desafinada, um pouco triste, um pouco bêbeda. Seguiam-se os andores no cimo dos quais se sustentavam São Cosme e São Damião com uma expressão de dor infinita, como convém aos santos que se prezam, e trajando roupinhas multicolores talhadas e bordadas ternamente pelas mãos de alguma devota mais impregnada de zelosa fé. Aos sacros pés, jaziam pratinhos cheios de moedas para pagar as dívidas contraídas aquando da compra de uns quantos foguetes já rebentados.

Naquele santo desfile não faltou a estranha presença de Santo António que, segurando o Menino numa das mãos, transportava, debaixo do braço, uma nota de cem escudos. A suster os andores vinha a rapaziada jovem que, arrotando a feijão e a vinho, extorquia os hereges tostões que se mantinham quedos, decerto guardados para obter regalos mundanos, nas sacrílegas carteiras da gente que assistia. Na cauda da procissão, seguia um magote de gente que cochichava orações e excertos, uns reais outros imaginários, da vida dos outros.

Já o sol estava no ocaso, colorindo de vermelho o horizonte, quando os Santos voltaram aos seus nichos recobertos de dourada talha. Toda a aldeia tornou à sua quietude habitual recolhida nos lares. O fumo, mais branco e de odor purificado pelo sacrifício da participação na liturgia branqueadora de pecados expostos e íntimos, desprendeu-se das rústicas chaminés. Indicativo claro dos preparativos para a ceia salvífica preparada na gula mortal das brasas incandescentes. Os montes formidáveis iam-se revestindo de um negro e medonho manto que faziam do aconchego do lar um hífen do paraíso.

Angelina combinara cear com Pureza em casa desta: prédio amplo com duas salas e uma vastíssima cozinha. A senhora Gilda, mãe de Pureza, mulher já entrada em anos, saboreava, túmida de gozo, a sua açorda de pão com alho.

- Ó Pureza, então o reverendo Turíbio não ficou satisfeito com as esmolas recebidas? - Perguntava, com a boca feita alheiro, a senhora Gilda.

- É o que diz a Josefa. Disse que quem lho contou foi o Felismino.

Josefa era chupada, lembrando um saco cheio de ossos, e rondaria os cinquenta Invernos. Casara com o senhor Seco, homem de muitas falas, algumas virtudes e abundantes bebedeiras. Há alguns anos atrás, Josefa havia enfermado de tuberculose, tendo-se salvo quase miraculosamente. (…)


Abel Dias Ferreira (pequena primeira história, nunca continuada, datada de 1988)

Criado em: 08/01/2007 • 08:50
Actualizado em: 08/01/2007 • 08:59
Categoria : O canto dos prosadores


Imprimir Imprimir

Comentários


Comentário n°1 

Cândido Casal 12/11/2008 • 23:38

estes nomes são ficticios?

o de SEco é conhecido.

sou filho da terra


  A confiança é um quadro que pintamos todos os dias para torná-lo mais transparente  Lourenço Dias Almeida da Silva
^ Topo ^