Menu
Qui Quae Quod

Fechar Responsabilidade Social Corporativa

Fechar ARTIGOS DE OPINIÃO

Fechar Justiça Restaurativa

Fechar Multiculturalismo

Fechar Dossier Europa

Fechar ARTIGOS DE FUNDO

Fechar ARTIGOS DE FUNDO II

Fechar ARTIGOS DE FUNDO III

Fechar TENDÊNCIAS 21

Fechar CIBERDIREITOS

Fechar No gesto da procura

Fechar Os erros do ditado

Fechar Para ler e deitar fora

Fechar O canto dos prosadores

Fechar UTILITÁRIOS

Fechar Apresentações

Fechar Barra JURIS

Fechar CANCIONEIRO de Castelões

Fechar Coisas e loisas da língua portuguesa

Fechar DIVULGAÇÃO DE LIVROS

Fechar Delitos Informáticos

Fechar Encontros

Fechar JURISPRUDÊNCIA

Fechar Livros Maravilhosos

Fechar MANUAL DE REQUERIMENTOS

Fechar NeoFronteras

Fechar Nova Lei das Rendas

Fechar O canto dos poetas

Fechar Vinho do Porto

Fechar Workshops

Relax
Pesquisar



Visitas

   visitantes

   visitantes online

PREFERÊNCIAS

Voltar a ligar
---

Nome

Password


SOS Virus

Computador lento?
Suspeita de vírus?
Fora com eles!
AdwCleaner

tira teimas!
--Windows--

Já deu uma vista de olhos pelas gordas de hoje?


Desde 2004
sujet.gifO canto dos prosadores - O Pardal


Adorava a liberdade. Talvez por isso toda a família o conhecesse por Zé Pardal.

Lembro-me bem das histórias contadas pela minha Mãe, nos tempos em que vivíamos no Casal da Eira, sito no Calhabé conimbricense, à luz trémula do candeeiro de petróleo, enquanto esperávamos a emissão do “Serão para os Trabalhadores”.

A Avó Beatriz não era para brincadeiras. Quando o Pardal não comparecia à hora costumeira do jantar, era certo e sabido que ia haver “festa”. O cerimonial, incrivelmente, parecia ser sempre o mesmo.

Já noite entrada, lá aparecia ele, de olhitos enfiados, cabelo revolto e joelhos deitados abaixo.

Do alívio das preocupações de Mãe, nascia, invariavelmente, o discurso reprovador que se impunha:

- Ah! Meu malandro! Onde é que tu andaste? Vá. Vai lavar essas mãos para vires jantar.

Sempre achei extraordinária aquela forma de actuar. Para a minha Avó, saciar a fome perfilava-se como algo de sacrossanto. Oito filhos. A nenhum faltou o pão. Trabalhava até à exaustão. Quando os tostões, em época de racionamento, não chegavam, lá conseguia trazer os restos do rancho do “12”. O meu Avô, que servia nos caminhos-de-ferro, ganhava a miséria que Portugal sempre pagou a quem trabalha. Integérrimos a Beatriz e o Augusto! Pobres até à morte, mas ricos de honestidade e fortes de carácter. Um dia, o Estado que se dizia Novo até lhes concedeu um prémio por terem tantos filhos. Um outro dia, talvez crendo que os tinham a mais, esse mesmo Estado enviou o sangue dos premiados para a Guerra Colonial.

Sentava-se. A mesa posta só para ele. Comia com gosto, sempre pensando que o perdão já havia sido concedido.

Terminada a refeição, era-lhe ordenado que se fosse deitar. Era aí que o sarrafo entrava em cena. Em trajes menores, a fuga era impossível e o castigo mais do que inevitável. Enquanto as nódoas negras não lograssem amarelecer, o Pardal andava direitinho que nem um fuso.

Sempre exagerado nas estórias que contava, era um gosto ouvi-lo. Sobretudo aquando das visitas ao Portugal dos Pequenitos, onde trabalhou até à reforma.

Soube anteontem que os exageros do meu Tio Zé Pardal já não cabem mais na pequenez deste Portugal.

Espero, desta feita, que a minha Avó Beatriz não o castigue por ter chegado atrasado à mesa do jantar. Em boa verdade, creio que o irá repreender por ter comparecido cedo demais.

Um abraço, Tio Zé Pardal!

Dedico-lhe, cantando, a primeira quadra da “Balada Aleixo”.

Quem canta por conta sua
Canta sempre com razão
Mais vale ser Pardal na rua
Que rouxinol na prisão

Abel Dias Ferreira


Criado em: 17/10/2006 • 07:28
Actualizado em: 17/10/2006 • 08:03
Categoria : O canto dos prosadores


Imprimir Imprimir

Comentários


Comentário n°1 

xistosa 29/12/2006 • 20:24

São pequenos nadas que engrandecem uma obra.
Há mais de duas horas que vejo os escaparates bem alinhados e com bom gosto.
Matei saudades com os erros do ditado, por o­nde estudei.
Não sei como vim cá parar, certamente não darei com o caminho, vou ficar com as coordenadas.
Tudo muito bem estruturado, até dá gosto, principalmente para que nada percebe, que é o meu caso. (burro velho nunca mais aprende).
Continuem e que tenham todo a sorte do mundo !!!

  Recomeça... se puderes,
sem angústia e sem pressa e os passos que deres,
nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade,
enquanto não alcances não descanses,
de nenhum fruto queiras só metade  
Miguel Torga
^ Topo ^