Menu
Qui Quae Quod

Fechar Responsabilidade Social Corporativa

Fechar ARTIGOS DE OPINIÃO

Fechar Justiça Restaurativa

Fechar Multiculturalismo

Fechar Dossier Europa

Fechar ARTIGOS DE FUNDO

Fechar ARTIGOS DE FUNDO II

Fechar ARTIGOS DE FUNDO III

Fechar TENDÊNCIAS 21

Fechar CIBERDIREITOS

Fechar No gesto da procura

Fechar Os erros do ditado

Fechar Para ler e deitar fora

Fechar O canto dos prosadores

Fechar UTILITÁRIOS

Fechar Apresentações

Fechar Barra JURIS

Fechar CANCIONEIRO de Castelões

Fechar Coisas e loisas da língua portuguesa

Fechar DIVULGAÇÃO DE LIVROS

Fechar Delitos Informáticos

Fechar Encontros

Fechar JURISPRUDÊNCIA

Fechar Livros Maravilhosos

Fechar MANUAL DE REQUERIMENTOS

Fechar NeoFronteras

Fechar Nova Lei das Rendas

Fechar O canto dos poetas

Fechar Vinho do Porto

Fechar Workshops

Relax
Pesquisar



Visitas

   visitantes

   visitantes online

PREFERÊNCIAS

Voltar a ligar
---

Nome

Password


SOS Virus

Computador lento?
Suspeita de vírus?
Fora com eles!
AdwCleaner

tira teimas!
--Windows--

Já deu uma vista de olhos pelas gordas de hoje?


Desde 2004
sujet.gifPara ler e deitar fora - Arroz de miúdos

Texto lido no programa HISTÓRIA DE VIDA, da Antena 1, dia 28 de Junho de 2007.

Arroz de miúdos


 




- Então tu ficas encarregado do arroz.
- Combinado!

Tinha assim ficado acordado que do arroz tratava eu durante aqueles dias de campismo.

Éramos cinco adolescentes com ordem de soltura. Pela primeira vez estávamos por nossa conta e risco entre pinhais junto à praia. Longe, mas não muito, das saias da mãe e do poder paternal.

A tarefa atribuída a cada um não era o problema principal. Sério mesmo era conseguir descobrir como aquilo era feito lá em casa – no meu caso, o arroz – sem que ninguém se apercebesse disso.

Não sei de culturas que tenham educado os homens para a cozinha. Homem na cozinha? Onde é que já se viu? Enfim, orgulho ou receio da proximidade de um lugar sagrado onde o mistério acontece.

Poucos dias havia pela frente para anotar, com a precisão possível, ingredientes, gestos e tempo de um cozinhado. Não era coisa simples. Aquilo tinha de ser feito disfarçadamente e sempre a uma distância segura, para não levantar suspeitas. Sim, que essa aproximação dos tachos poderia ser depois assunto de conversa entre as amigas da minha mãe e das demais.

Naquela idade a casa era mais uma pensão – completa – que um lar. Dormida com pequeno almoço, almoço e jantar, não falando da roupa lavada. O resto do tempo era passado no café com os amigos. Este sim, era o lar da rapaziada. Ali se falava de tudo e de nada, ali se planeava o que fazer, ou não fazer, e aonde ir ou não ir.

Foi ali que decidimos fazer campismo.
- Já sei como se faz o estrugido (refogado) para o arroz – era esse o segredo do saboroso arroz da minha mãe. Podia comer-se arroz com arroz.

Na data marcada arrancamos. Uma carrinha carregada de mantimentos e preocupações maternais. Avulso iam também conselhos e recomendações sem fim.

Se houvesse pizas e micro-ondas nessa altura, tudo seria bem diferente. Assim, descobrimos que havia mais enlatados que os que imaginávamos. Em variedade e quantidade. Sim, que “eles não sabem fazer nada e não podem morrer à fome” – pensavam eles.

Escolheu-se o local, montou-se a tenda e a tarde passou-se entre o reconhecimento do terreno e a logística. O entardecer trazia o desafio de mostrar os segredos aprendidos.

- Que comemos hoje?
- Eu faço o arroz!

E aqui começou o fim do que poderia ser uma promissora carreira de cozinheiro. Descascou-se a cebola e os dentes de alho, regou-se a preceito com azeite e… fogo à peça.

Pouco depois as nossas almas elevavam-se. O aroma soberbo que saía da panela agitava os corpos já cansados que ansiavam pelo prazer reconfortante desse arroz.

- Quanto comes?
- Um prato.
- E tu?
- Também.
- Com um cheirinho destes, o meu tem de ser bem cheio.

E para dentro da panela entraram cinco pratos de arroz bem medidos.

Nestas coisas da comida há que saber esperar. Quem descobriu a impaciência culinária, abriu, com sucesso, o primeiro “pronto a comer”.

Sentamo-nos a adorar a panela, à espera que o milagre acontecesse. A água e o arroz tinham levado o aroma do refogado. Mas devia ser mesmo assim…

Não tardou que uma admiração geral se transformasse em séria preocupação. O arroz começava a subir, subir, ameaçando sair pela panela fora.

De um salto, pôs-se a tampa na panela. De pouco adiantou. Ela começou a subir também.

Como para grandes males só há grandes remédios, a tampa levou em cima com um daqueles paralelos de granito das estradas. Acalmou, por fim.

Que raio, a minha mãe nunca precisou de pôr nenhum peso sobre a tampa… Nem alinhavados estavam estes pensamentos, quando todos recuaram, estupefactos.

A panela tinha-se transformado numa marmita de Papin descontrolada, numa máquina a vapor que cuspia arroz por todo o lado com um ruído de sopro bem zangado.

Uma vergonha! Por momentos pensamos que aquilo podia explodir e alguém apagou o lume por instinto.

O desânimo instalou-se. Não havia plano B, mas os nossos pais deviam ter-nos encomendado a todos os santos à partida.

Não muito longe de onde nos encontrávamos, um casal de certa idade tinha presenciado tudo. Outra vergonha em cima da primeira. Apercebemo-nos disso quando um vulto feminino se aproximou. Se houvesse por ali um buraco… Mas não havia.

- Não se preocupem que isso acontece. Venham jantar connosco! – disse ela com sorriso maternal.

Será que tinha medido bem as palavras? Dar de comer a cinco mânfios daquela natureza rebentava com qualquer despensa.

Entreolhámo-nos um tanto incrédulos, mas instintivamente tínhamos acabado de estabelecer um pacto de ponderação que admirou os nossos anfitriões. Hoje inclino-me a pensar que “quando a comida é pouca, sobra sempre”.

Pouco importa. O que interessa é que dali para a frente os dias foram diferentes. Nessa noite quebramos um tabu e falamos de culinária.

José Manuel Ruas


Criado em: 29/08/2006 • 19:19
Actualizado em: 30/01/2012 • 18:24
Categoria : Para ler e deitar fora


Imprimir Imprimir

Comentários


Comentário n°4 

Zelia 30/01/2012 • 16:09

Ah ah ah! Muito bom, estou farta de rir, principalmente ao imaginar as vossas caras de pânico perante a vida própria do arroz e. Vou mostrar aos meus filhos, a ver se dão mais valor aos meus ensinamentos.

Comentário n°3 

su 14/06/2011 • 23:26

Bom, como boa cozinheira, vi logo a resultado...5 pratos de arroz prá panela.

Ri tanto que me doem as queixadas,como dizem cá no Norte. Parecia que estava ali a assistir à cozedura do arroz. Fantástico texto. Parabéns.


Comentário n°2 

Paulo Cardoso 29/04/2008 • 23:47

Grande aventura. Excelente narração. Grande ensinamento. Hà já duas horas que estou rindo.smile 

Escreva (narre) mais aventuras.

 1 abraço.


Comentário n°1 

cubata 30/06/2007 • 14:44

Imagino a aventura......deve ter sido hilário!

Quem não fez campismo e se deparou com problemas desse tipo?

Muito bom o texto....Saravá!


  Por muito longe que o espírito alcance, nunca irá tão longe como o coração  Confúcio
^ Topo ^