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news_artigo.gifARTIGOS DE FUNDO II - O sexo em Roma

bolinha_vermelha.gif
frescos_pompeia.jpg"Apesar de nos considerarmos totalmente livres, estamos carregados de tabus e limitações. Os antigos romanos teriam considerado a maioria das nossas atitudes em relação ao sexo algo inaudito e até absurdo.

E muitas das normas que nós costumamos dar por assentes nada têm a ver com as que eles seguiam.
O sentimento de culpa que nós costumamos associar ao gozo sexual teria parecido estranho aos cidadãos de Roma", escreve John R. Clarke, catedrático de História da Arte da Universidade do Texas e autor do livro Sexo em Roma (Oceano Ed.).

É realmente assim? Que peso tinha o sexo na vida diária na época antiga?

Promíscuos

Uma recente exposição em Atenas, no Museu de Arte das Cicladas, permite responder em parte à pergunta que se acaba de formular: o erotismo não era apenas um elemento decorativo (a sua representação em esculturas e pinturas servia, entre outras coisas, para afastar o azar) mas parte integrante da vida do cidadão, tanto na esfera privada como na pública.

"Os nossos antepassados não eram falsos beatos", diz o director do museu, Nicholaos Stampolidis. "Eram muito tolerantes; a sociedade era aberta. E o sexo era uma força unificadora da sociedade".

Porquê? Vénus, a deusa do prazer e do amor, era a mãe de Eneias, fundador da linhagem romana, e isso levou a que tivessem por ela uma especial veneração em Roma. Por sua vez, o falo representava e simbolizava as misteriosas forças criadoras e fecundadoras do universo, o poder gerador da natureza que protegia a vida contra as forças que pudessem ameaçá-la. Daí que fizesse parte do mobiliário urbano e doméstico.

De classe

Os hábitos sexuais em Roma herdaram-se em parte da cultura grega, ainda que com umas quantas diferenças. Os helénicos eram também desinibidos, mas tudo se centrava numa questão de género: o homem tinha direito de usufruir (com homens, essencialmente), enquanto que a mulher servia para dar à luz atenienses e pouco mais.

Em Roma, pelo contrário, os padrões de comportamento sexual estavam organizados em função da classe social. A elite tinha as mãos livres: não havia nenhum problema se frequentavam prostitutas ou escravos, fosse do sexo masculino ou feminino, porque se consideravam que estes pertenciam a uma categoria inferior.


"Nessa época, um cidadão livre podia fazer praticamente tudo em matéria de sexo" resume Alfonso Cuatrecasas, doutor em filologia clássica e autor de Amor e sexualidade na antiga Roma, (Ed Letras Difusão), um livro muito documentado com uma tradução de textos antigos fiel ao espírito da época.

Por exemplo, um cidadão romano podia tranquilamente deitar-se com a sua mulher, com um homem nas termas, com a prostituta num bordel e com um escravo no pátio da sua casa.

Para ele existiam dois tipos de mulheres: as que serviam para casar, com o fim de ter algum filho, e as que serviam para gozar. Ao primeiro grupo pertenciam as cidadãs romanas. Ao segundo grupo, escravas, estrangeiras e prostitutas.

Como escreve Plauto, "desde que te abstenhas de mulheres casadas, viúvas, virgens ou rapazotes de livre berço, faz amor com quem te dê na gana". Ao cidadão romano só estavam vedadas as relações com outra mulher da sua classe: em algumas ocasiões até podia chegar a ser castrado por esse motivo.

Quanto ao mais, um membro da elite de Roma até podia vangloriar-se publicamente dos seus amores ou lamentar-se dos seus infortúnios amorosos, sem que ninguém se surpreendesse ou o criticasse por isso. Não se podia, em nenhum caso, acusá-lo de adultério.

Imperadores

Os imperadores eram os primeiros a dar exemplo.

Tibério
, amante do sexo, mandou decorar todas as alcovas destinadas a este fim com múltiplas pinturas ilustrando as diferentes posturas sexuais.

Calígula
levou a teoria à prática: deitava-se com a irmã… e há mais: um dia convidaram-no para um casamento, apresentou-se e a primeira coisa que fez foi violar o noivo e a noiva.

Júlio César, além de praticar a homossexualidade, deitou-se praticamente com todas as mulheres dos seus amigos senadores e generais.

Nero, grande amante das bacanais, mandou castrar um garoto, vestiu-o de mulher. e casou-se com ele.

O sexo desinibido não só era um privilégio masculino: Júlia, filha de Augusto, e Messalina, esposa do imperador Cláudio, eram assíduas frequentadoras de prostíbulos.

As classes mais humildes eram as que, de certa maneira, pagavam a factura deste sistema social. Em particular, se se era escravo, estava-se à mercê (sexual) do seu amo (e, às vezes, da esposa deste).

Em Roma, qualquer homem que pertencesse à elite possuía um jovem e belo escravo com o qual podia ter relações sem problema algum - era facto socialmente aceite.

"Em termos legais, tratava-se de sexo entre o proprietário e a propriedade. Tendo em conta que um jovem custava o que custa um carro de luxo hoje em dia, não manter relações sexuais com escravos seria como comprar um Mercedes e nunca o conduzir", escreve Clarke.

Casamento

Nessa época não havia muito espaço para o romantismo de casal já que, como vimos, os romanos não ligavam a isso, apenas queriam sexo. Em Roma, achava-se que o amor diminuía a capacidade de pensamento racional e era visto como algo ridículo.

A idade núbil da mulher era aos doze anos e a do homem aos dezassete. A união matrimonial – só heterossexual – era um mero trâmite burocrático.

"Era uma instituição aberrante, um acordo com mulheres jovens, que passavam directamente de adolescentes a matronas, com o único objectivo de procriar. Procurar dar satisfação à mulher era inconcebível. Não se contemplava a satisfação mútua", lembra Cuatrecasas.

O filósofo e poeta Lucrécio sustentava que à mulher "não lhe são necessários os movimentos lascivos…as prostitutas são as que, pelo seu próprio interesse, costumam realizar estes movimentos para que o prazer do coito resulte aos homens mais intenso: o qual não parece que seja necessário, de modo algum, às nossas esposas".

A libertação sexual feminina, tal como a entendemos hoje em dia, não estava contemplada. Para que se tenha uma ideia, Ovídio foi condenado e expatriado porque em Ars amandi se atreveu a expressar  conceitos intoleráveis para a moral de então.

"Odeio o coito em que o orgasmo não é mútuo. Gosto da mulher que com gritos expresse o seu prazer e me peça para não ir tão depressa ou me diga para ir mais devagar", escreveu. Estas frases acabaram por lhe custar  a vida.

Mulher

Contudo, há que introduzir um certo matiz. Entre a Grécia e Roma havia uma diferença fundamental: na civilização helénica, as mulheres não tinham nenhuma influência. "Temos rapazes para nosso prazer, concubinas para as nossas necessidades sexuais e esposas para orientar a casa e para nos darem filhos", rezava um provérbio grego da época.

De facto, em Atenas a homossexualidade entre homens estava na ordem do dia e estava quase mais bem  vista que as relações heterossexuais (pode-se citar a célebre frase de Oscar Wilde: "Eu faço o mesmo que Sócrates").

A mulher na antiga Grécia servia unicamente para a procriação. O homem era o seu guarda legal. Eurípides chegou a dizer que "se a mulher se deixasse levar pelos seus instintos seria um perigo para o homem".

Em Atenas existia a crença que elas tinham uma capacidade sexual inesgotável e que, portanto, o homem tinha de a controlar e até reprimir. A subjugação, aliada ao facto de contraírem casamento aos dez anos, fazia com que o seu papel na vida pública fosse quase inexistente.

Por outro lado, a mulher em Roma, adquire um mínimo de emancipação. "Na Grécia a mulher não tinha nenhum peso e era um tanto servil. Em Roma, continuava a ser reprimida sexualmente no casamento, mas tinha vida social, participava em jantares e conversações", diz Cuatrecasas.

Dupla moral

Além disso, como acontece frequentemente quando se fala de costumes sociais, havia uma certa diferença entre a doutrina oficial e a realidade. Por exemplo, nem mesmo elas tinham muitos problemas para satisfazer as suas necessidades sexuais.

"A mulher que queria ter sexo tinha que fazer um pouco como Dr. Jeky III e Mister Hyde. Algumas podiam prostituir-se ocasionalmente ou frequentavam bordéis para conhecer o prazer. Saíam à rua, arranjavam-se de forma atractiva, punham perucas, maquilhavam-se. Mudavam de identidade: havia que dissimular", destaca António Poveda, professor de História Antiga da Universidade de Alicante.

A vida do casal naquela época não estava baseada na fidelidade mútua. "A mulher podia ir com outra mulher, não era um problema, não era infidelidade propriamente dita. Como o homem que ia com outro homem. A partir do império, a bissexualidade estava aceite e o adultério era algo normal", afirma Cuatrecasas.

Libertação

Com a chegada do império, os direitos da mulher romana conheceram um notável avanço, e não só graças à possibilidade de um divórcio expresso. Com efeito, "durante o século I, o casamento tradicional - que submetia a mulher à autoridade do seu marido - desapareceu para ser substituído por um vínculo que a sujeitava à autoridade do pai. Quando este morria, a mulher tinha direito a herdar a parte que lhe correspondia do património paterno", assinala Clarke.

Isto permitiu-lhes uma maior autonomia, primeiro financeira e depois em termos de costumes sexuais, gozando do erotismo reinante entre os varões. É muito indicativo, neste sentido, o comentário do poeta Marcial: "Perguntam-me por que não quero casar-me com uma mulher rica? Não quero ser a mulher da minha mulher".

Homossexualidade

Era uma característica sobretudo da civilização grega. Em Atenas os homens só se divertiam, em matéria de sexo, entre homens. O culto do corpo e da beleza através do desporto (ginásio vem de gimnos e significa despido) servia para tal fim.

Platão considerava que o amor entre dois homens era até superior e tinha uma carga espiritual. Era frequente que a relação homossexual fizesse parte do processo de iniciação do adolescente grego. Por outro lado, a época romana caracterizava-se pela ausência de categorias e rótulos.

"A nossa concepção que um homem é heterossexual, homossexual ou bissexual não caberia na mente de um cidadão da antiga Roma. Para ele, o único objectivo era atingir o prazer sexual introduzindo o pénis numa vagina, ou num ânus ou na boca de qualquer objecto sexual desejável", escreve Clarke.

Isso sim, a homossexualidade aceitava-se sem problemas, mas sempre que a postura passiva pertencesse a alguém da classe inferior. "Não se podia humilhar um cidadão romano com uma penetração anal", lembra Poveda.

Não podemos esquecer que em Roma o homossexual passivo estava considerado como um infame. Se um romano não caía neste erro, então, e só então, como afirma Suetónio, poderia dizer-se "casto".

Séneca, o Reitor, expressa-o de forma taxativa: "a passividade é um crime num homem livre por nascimento; num escravo é unicamente o seu dever".

Prostituição

Os prostíbulos desempenhavam na antiga Roma um papel essencial, como plataforma de desafogo dos instintos. Como escreveu Catão, o Velho: "é bom que os jovens possuídos pela luxúria vão aos bordeis em vez de ter de incomodar as esposas de outros homens".

As prostitutas pagavam impostos, tinham que inscrever-se em registos para levar a cabo a sua actividade (chegaram a contabilizar-se mais de 30.000) e até comemoravam o seu próprio dia, no dia 23 de Dezembro.

O preço de um serviço era relativamente barato (as tarifas equivaliam às de um copo de vinho numa taberna) com o que os bordeis se transformaram em lugares idóneos para a classe média.

À parte os lupanares, comparáveis aos prostíbulos, o sexo podia também acontecer nas ruas (a palavra prostituta vem de pro statuere e significa estar colocado diante, mostrar-se), nos pórticos dos antigos teatros, nos cemitérios e nas termas, que na idade imperial se transformam em lugar promíscuo graças ao desaparecimento da separação entre sexos.

"Em Pompeia vêem-se prostitutos. De facto, as prostitutas romanas chegam a queixar-se da concorrência destes últimos", diz Poveda. Com efeito, contratar um garoto felizardo saía bastante mais caro ao cliente porque se considerava uma mercadoria de grande qualidade.

Tabus

Apesar deste aparente desenfreamento, Roma também cultivava os seus tabus. Já mencionámos o tema do sexo passivo nas relações homossexuais. O outro tabu (em teoria, porque na prática a regra ignorava-se) era o sexo oral.

"Entre os romanos existia o conceito de boca pura. A boca era símbolo de responsabilidade e dever social", lembra Clarke. Através dela faziam-se discursos e a arte da oratória estava muito considerada em Roma, pelo que a felação era vista como algo sujo.

Para um homem, era uma infâmia, e até para a mulher – sempre que não fosse escrava ou prostituta. Segundo Clarke, "se o escândalo Clinton- Lewinsky tivesse acontecido na Roma antiga, a única culpada teria sido a ex-bolsista por ter incorrido num delito de impureza oral".

Só contava o orgasmo masculino: procurar prazer era um acto de submissão sexual, para o homem, algo impensável nessa época. Logo, o cunnilingus, era talvez a desgraça maior, porque, como dissemos antes, era inconcebível pensar que o homem romano se rebaixasse ao ponto de querer procurar dar prazer a uma mulher.

Cristianismo

Mesmo que aos nossos olhos os hábitos sexuais romanos nos possam parecer um caos ou apontar para a anarquia, a civilização de Roma durou 1.229 anos (no Ocidente).

Isto demonstra que estes brandos costumes não eram incompatíveis com a governabilidade. Os cidadãos aceitavam-nas de bom grado e retiravam qualquer forma de repressão ou regulamentação.

"De facto, o cristianismo mal conseguiu penetrar em Roma e a sua influência no começo foi mínima", lembra Cuatrecasas. Na sua opinião "o cristianismo era um problema para Roma: defendia a igualdade de costumes, os mesmos direitos entre homem e mulher e promovia um deus único e anti-esclavagista ".

Era uma autêntica bomba contra as instituições romanas e era popular unicamente entre a classe mais humilde. Porque teve então tanto sucesso a repressão da sexualidade nos anos posteriores? "

No fundo alguns preceitos do cristianismo, como a abstinência fora do casamento eram a melhor forma de libertação da humilhação que a mulher sofria. Era uma forma de rebeldia contra a ordem existente", assinala Poveda. A queda do Império fez com que o cristianismo conseguisse impor o seu credo e, a pouco e pouco, abandonou-se a promiscuidade.

Modernos?

Em conclusão, apesar dos romanos (e antes deles, os gregos) terem vivido a sexualidade de uma forma muito diferente, é inegável que, em certos âmbitos, nos parecemos um pouco com eles.

"Também a nossa sociedade se rege por uma certa duplicidade moral: temos sexo antes de nos casarmos, socialmente condenamos em teoria os prostíbulos e a infidelidade, mesmo que depois os toleremos.

E a homossexualidade está agora mais aceite. A autêntica diferença com a antiguidade é que felizmente não há escravos e existe o delito de pederastia", sustenta Cuatrecasas.

E não é preciso recuarmos muito no tempo para nos darmos conta que, até no nosso país, o direito ao prazer da mulher foi uma conquista relativamente recente. "Nos anos 50 poucos homens teriam aceite esta ideia", assegura Cuatrecasas. Como na antiga Roma.

PIERGIORGIO M. SANDRI





Criado em: 30/03/2010 • 09:12
Actualizado em: 30/03/2010 • 12:46
Categoria : ARTIGOS DE FUNDO II


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