
Começando pelo princípio. Ortografia tem origem no grego (
ortho +
graphos) e significa
a forma correcta de escrever.
O português de Portugal é a língua mãe de uma outra língua que se chama português do Brasil.
Na sua fabulosa criatividade, os brasileiros dão às palavras a sonoridade da fala, simplificam, adaptam, criam, inventam. Por vezes temos até dificuldade em compreender a forma de se exprimirem. Graças a isso, temos de o confessar, desenvolvemos o inglês técnico em algumas áreas.
Nos nossos tempos de escola, a falta de um acento, de um h, de uma cedilha, custava-nos suores frios, castigos físicos e penosos trabalhos de casa. Escrever bem significava muito mais que juntar letras correctamente. Era retrato da nossa identidade, respeito pelos que nos precederam, era herança de gerações a preservar, para depois transmitir. Por isso impunha-se de forma implacável este dever de bem escrever.
Até uma dada altura habituamo-nos a ver a evolução da nossa língua como algo natural. As palavras foram mudando com o tempo, sim. Mas foram-no por elementos tão naturais como a apócoque, síncope e aférese. Não por tratados ou acordos de secretária.
O chamado acordo permite-nos a tentação de pensar que escrever bem ou escrever mal deixou de ser uma questão de cultura, mas de número de pessoas.
Se a maioria escrever mal, está a escrever bem por ser maioria e pode-deve impor-se às minorias para uniformizar uma língua comum. É o chamado nivelamento por baixo com abuso de poder.
Se no campo da comunicação as palavras soltas não têm uma importância relevante, no campo das novas tecnologias são determinantes. O novo poder dos nossos tempos chama-se informação. Quem mais depressa a possuir, mais e melhor partido pode tirar.
Se os profissionais de conteúdos não publicarem na net os seus textos de acordo com a nova grafia proposta no acordo, verão as suas páginas serem despromovidas para os últimos resultados de pesquisas em função do ajustamento dos algoritmos dos motores de pesquisa. As consequências económicas serão desastrosas.
Por outro lado, os tradutores passarão também maus momentos. A ideia que passa lá fora é que o português BR destitui de importância o português PT, absorvendo-o. A consequência paira na simples diferença de menos 50% na oferta de preços da tradução brasileira para um mercado incomparavelmente maior que o português de Portugal.
Alguns, no entanto, sairão a ganhar: as tipografias e as editoras.
Pondo de lado a questão económica, ficam os direitos das minorias.
De acordo com o Instituto Sócio Ambiental do Brasil, quando os portugueses chegaram ao Brasil existiam mais de mil línguas; hoje apenas cerca de 170 são faladas pelos povos indígenas. Dá que pensar...